- 🧮 Valores de referência (adulto, geral)
- 1) Fundamentos: Henderson–Hasselbalch e o que cada órgão “controla”
- Equação de Henderson–Hasselbalch (interpretação fisiológica)
- 2) Fisiologia renal profunda: onde o rim “faz” bicarbonato e excreta ácido
- 2.1 Túbulo proximal (TP): reabsorção de HCO₃⁻ filtrado (a maior parte)
- 2.2 Néfron distal (Túbulo distal + ducto coletor): excreção de H⁺ e regulação fina
- 2.3 Amônio (NH₄⁺): o grande “carreador” de ácido
- 3) Definições essenciais
- 4) Leitura sistemática da gasometria: um algoritmo que não falha
- 5) Fórmulas obrigatórias de compensação (metabólicas e respiratórias)
- 5.1 Acidose metabólica: Fórmula de Winter
- 5.2 Alcalose metabólica: compensação respiratória esperada
- 5.3 Distúrbios respiratórios: agudo vs. crônico (compensação renal)
- 5.4 Atalhos para detectar “misto” em 10 segundos
- 6) Anion gap (AG): como calcular, interpretar e evitar pegadinhas
- 6.1 Fórmula do AG sérico
- 6.2 Δ/Δ (Delta-Delta): identificando distúrbios metabólicos combinados e “triplos”
- 6.3 “Delta gap” em linguagem simples (para não errar no plantão)
- 7) Acidose metabólica (HCO₃⁻ baixo): fisiopatologia, clínica e manejo
- 7.1 Padrão gasométrico
- 7.2 Mecanismos (entender “onde o rim falha”)
- 7.3 Acidose metabólica com AG elevado
- Etiologias: do clássico ao atualizado
- Mecanismo na gasometria: uremia e cetoacidose (pedido obrigatório)
- “Osmolar gap” (quando suspeitar de tóxicos)
- Manifestações clínicas (o que procurar no leito)
- Tratamento
- 7.4 Acidose metabólica com AG normal (hiperclorêmica)
- Ânion gap urinário (AGu): diferenciando renal vs extrarrenal
- 8) ATR (Acidose Tubular Renal): comparação didática (tipo 1, 2 e 4)
- 9) Alcalose metabólica (HCO₃⁻ alto): fisiopatologia, clínica e manejo
- 9.1 Padrão gasométrico
- 9.2 Por que a alcalose metabólica se mantém? (o “tripé”)
- 9.3 Classificação pela clorúria
- 9.4 Clínica
- 10) Acidose respiratória (PaCO₂ alto): fisiopatologia, clínica e manejo
- 10.1 Padrão gasométrico
- 10.2 Fisiopatologia
- 10.3 Causas comuns
- 10.4 Tratamento
- 11) Alcalose respiratória (PaCO₂ baixo): fisiopatologia, clínica e manejo
- 11.1 Padrão gasométrico
- 11.2 Causas comuns
- 11.3 Tratamento
- 12) Tabela-síntese: padrões gasométricos
- 13) Excesso de base (BE): como usar sem se enganar
- 14) Exemplos curtos
- Exemplo A — Acidose metabólica com compensação adequada (Winter)
- Exemplo B — Acidose metabólica + acidose respiratória (misto)
- Exemplo C — Alcalose metabólica + alcalose respiratória (misto)
🧮 Valores de referência (adulto, geral)
- pH: 7,35–7,45
- PaCO₂: 35–45 mmHg
- HCO₃⁻: 22–26 mEq/L
- Anion gap (AG) “clássico”: 12 ± 2 mEq/L (sem K⁺)
1) Fundamentos: Henderson–Hasselbalch e o que cada órgão “controla”
O pH é determinado pela relação entre o componente metabólico (HCO₃⁻, controlado principalmente pelo rim) e o componente respiratório (PaCO₂, controlado pelo pulmão).
- Pulmão: altera a PaCO₂ em minutos (hiper/hipoventilação).
- Rim: ajusta HCO₃⁻ e a excreção de ácido em horas a dias (pleno em 3 a 5 dias).
Equação de Henderson–Hasselbalch (interpretação fisiológica)
A forma didática mais usada:
Interpretação:
- HCO₃⁻ é o “numerador” (rim).
- PaCO₂ é o “denominador” (pulmão).
Logo:
- Queda de HCO₃⁻ reduz pH (tendência a acidemia).
- Aumento de PaCO₂ reduz pH (tendência a acidemia).
2) Fisiologia renal profunda: onde o rim “faz” bicarbonato e excreta ácido
2.1 Túbulo proximal (TP): reabsorção de HCO₃⁻ filtrado (a maior parte)
No TP, o rim recupera HCO₃⁻ filtrado. O processo depende da secreção de H⁺ para o lúmen (via NHE3), que se combina com HCO₃⁻ formando H₂CO₃ e, por ação da anidrase carbônica, gera CO₂ que entra na célula e é “reconvertido” em HCO₃⁻.
- Ideia-chave: o TP não “excreta ácido líquido” de forma principal. Ele evita perder bicarbonato.
- Falhas no TP causam perda renal de HCO₃⁻.
“Novo bicarbonato” vs. “bicarbonato recuperado”
- Recuperar HCO₃⁻ filtrado: evita perda de base, mas não aumenta o pool corporal acima do basal.
- Gerar “novo HCO₃⁻”: ocorre quando o rim excreta ácido na forma de NH₄⁺ e ácidos tituláveis (ex.: H₂PO₄⁻). Cada H⁺ excretado “equivale” à adição de um novo HCO₃⁻ ao plasma.
2.2 Néfron distal (Túbulo distal + ducto coletor): excreção de H⁺ e regulação fina
As células intercaladas alfa (principalmente no ducto coletor cortical) secretam H⁺ via H⁺-ATPase e H⁺/K⁺-ATPase e geram HCO₃⁻ para o plasma.
- Ideia-chave: aqui o rim consegue acidificar a urina e excretar ácido líquido.
- Falhas distais prejudicam a secreção de H⁺, levando a incapacidade de acidificar urina.
2.3 Amônio (NH₄⁺): o grande “carreador” de ácido
A excreção de NH₄⁺ é a principal forma de aumento adaptativo da excreção de ácido em acidoses metabólicas.
- Em causas extrarrenais de acidose hiperclorêmica, o rim tende a aumentar NH₄⁺ urinário.
- Em causas renais (ATR), essa resposta costuma ser inadequada.
3) Definições essenciais
- Acidose / alcalose: processos fisiopatológicos (tendência a baixar ou elevar pH).
- Acidemia / alcalemia: estado final do pH sanguíneo.
4) Leitura sistemática da gasometria: um algoritmo que não falha
Regra de ouro: sempre responda, nesta ordem:
- Qual é o distúrbio primário?
- A compensação está apropriada?
- Existe distúrbio misto?
- Se houver acidose metabólica: qual é o AG e o Δ/Δ?
- Olhe o pH
- pH < 7,35: acidemia
- pH > 7,45: alcalemia
- Identifique o processo primário
- A alteração dominante está em PaCO₂: respiratório.
- A alteração dominante está em HCO₃⁻: metabólico.
- Cheque a compensação esperada (fórmulas abaixo)
- Compensação apropriada: sugere distúrbio simples.
- Compensação inapropriada: sugere distúrbio misto.
- Se acidose metabólica: calcule AG e, se AG elevado, faça Δ/Δ.
- Sempre revise eletrólitos e contexto (K⁺, Cl⁻, lactato, creatinina, glicemia, cetonas, osmolaridade, tóxicos).
5) Fórmulas obrigatórias de compensação (metabólicas e respiratórias)
5.1 Acidose metabólica: Fórmula de Winter
PaCO₂ esperada = (1,5 × HCO₃⁻) + 8 ± 2
Interpretação:
- PaCO₂ medida > esperada: acidose respiratória associada.
- PaCO₂ medida < esperada: alcalose respiratória associada.
Pontos de prova (Winter):
- A Winter é válida para acidose metabólica (AG alto ou normal).
- Se a PaCO₂ “bate” com a Winter, a hiperventilação é compensatória (não é um distúrbio respiratório primário).
- Se a PaCO₂ estiver muito baixa (mais do que o esperado), isso geralmente é alcalose respiratória associada (dor, sepse, hipoxemia, TEP, cirrose, gestação, ventilação excessiva).
5.2 Alcalose metabólica: compensação respiratória esperada
Forma prática (muito usada):
- PaCO₂ esperada ≈ 40 + 0,7 × (HCO₃⁻ − 24) ± 5
Observações:
- A hipoventilação compensatória é limitada pela necessidade de manter oxigenação.
- Se PaCO₂ estiver muito acima do esperado, pense em doença respiratória concomitante.
5.3 Distúrbios respiratórios: agudo vs. crônico (compensação renal)
A lógica é que, no agudo, o rim ainda não ajustou HCO₃⁻ de forma importante. No crônico, há retenção ou perda adaptativa maior.
Distúrbio | Agudo (mudança de HCO₃⁻) | Crônico (mudança de HCO₃⁻) | Regra prática |
Acidose respiratória (↑ PaCO₂) | ≈ +1 mEq/L de HCO₃⁻ a cada +10 mmHg de PaCO₂ | ≈ +3,5 a +4 mEq/L de HCO₃⁻ a cada +10 mmHg de PaCO₂ | Crônico “compensa mais” |
Alcalose respiratória (↓ PaCO₂) | ≈ −2 mEq/L de HCO₃⁻ a cada −10 mmHg de PaCO₂ | ≈ −4 a −5 mEq/L de HCO₃⁻ a cada −10 mmHg de PaCO₂ | Crônico “compensa mais” |
- Por que isso importa na prática?
Se a variação de HCO₃⁻ não bate com o esperado para o grau de mudança da PaCO₂ (e para o tempo de doença), quase sempre existe distúrbio misto.
5.4 Atalhos para detectar “misto” em 10 segundos
- pH quase normal com PaCO₂ e HCO₃⁻ muito alterados → pense em distúrbio misto (um tende a puxar pH para baixo e o outro para cima).
- Compensação nunca “normaliza” o pH:
- Se pH = 7,40 com PaCO₂ bem alta, não é “compensado”: é misto.
- Dois marcadores indo na mesma direção do pH:
- pH baixo + PaCO₂ alta + HCO₃⁻ baixo → há mais de um distúrbio.
- pH alto + PaCO₂ baixa + HCO₃⁻ alto → há mais de um distúrbio.
6) Anion gap (AG): como calcular, interpretar e evitar pegadinhas
6.1 Fórmula do AG sérico
AG = Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻)
AG elevado sugere ânions não mensurados (lactato, corpos cetônicos, toxinas, sulfatos/fosfatos na uremia).
- Correção do AG pela albumina (quando necessário)
Hipoalbuminemia reduz o AG “normal”. Uma correção frequentemente usada:
- AG corrigido = AG medido + 2,5 × (4,0 − albumina em g/dL)
Isso reduz falso-negativos de AG elevado em pacientes críticos.
6.2 Δ/Δ (Delta-Delta): identificando distúrbios metabólicos combinados e “triplos”
Δ/Δ = (AG medido − 12) / (24 − HCO₃⁻ medido)
Interpretação prática:
- < 0,8: sugere acidose metabólica hiperclorêmica associada.
- 0,8–1,2: compatível com acidose com AG elevado “pura”.
- > 1,6: sugere alcalose metabólica associada.
- Como o Δ/Δ pode revelar “distúrbio triplo”
Exemplo conceitual:
- Paciente com acidose metabólica com AG elevado (ex.: cetoacidose), mas HCO₃⁻ não cai tanto quanto esperado (Δ/Δ alto) sugere alcalose metabólica concomitante (ex.: vômitos, diurético, contração de volume).
- Se além disso a PaCO₂ não seguir Winter, pode haver também distúrbio respiratório concomitante.
6.3 “Delta gap” em linguagem simples (para não errar no plantão)
Alguns autores preferem pensar assim:
- ΔAG = AG − 12
- ΔHCO₃⁻ = 24 − HCO₃⁻
- Em acidose metabólica com AG elevado “pura”, tende a ocorrer ΔAG ≈ ΔHCO₃⁻.
- Se ΔAG > ΔHCO₃⁻, o bicarbonato “caiu menos do que deveria” → sugere alcalose metabólica associada.
- Se ΔAG < ΔHCO₃⁻, o bicarbonato “caiu mais do que deveria” → sugere acidose metabólica hiperclorêmica associada.
7) Acidose metabólica (HCO₃⁻ baixo): fisiopatologia, clínica e manejo
7.1 Padrão gasométrico
- pH ↓ (acidemia), HCO₃⁻ ↓, PaCO₂ ↓ (compensação por hiperventilação).
7.2 Mecanismos (entender “onde o rim falha”)
- Ganho de ácido (produção ou ingestão) ou perda de base (HCO₃⁻).
- Resposta renal “normal” em acidose metabólica: aumentar amoniagênese e excreção de NH₄⁺, gerando “novo HCO₃⁻”.
Conexão com túbulo proximal e distal
- Túbulo proximal: aumenta reabsorção de HCO₃⁻ e aumenta produção de NH₄⁺ a partir de glutamina (amoniagênese) para excretar mais ácido.
- Néfron distal: aumenta secreção de H⁺ (H⁺-ATPase) e “aprisiona” H⁺ em tampões urinários (H₂PO₄⁻) e como NH₄⁺.
Em ATR (defeitos tubulares), essas etapas falham.
7.3 Acidose metabólica com AG elevado
Etiologias: do clássico ao atualizado
MUDPILES (clássico, ainda cobrado):
- M: Methanol (metanol)
- U: Uremia (DRC avançada, retenção de sulfatos/fosfatos)
- D: Diabetic ketoacidosis (cetoacidose diabética)
- P: Propylene glycol (solventes/infusões) ou Paraldehyde (histórico)
- I: Iron, Isoniazid (algumas listas incluem)
- L: Lactic acidosis (acidose láctica)
- E: Ethylene glycol (etilenoglicol)
- S: Salicylates (salicilatos)
GOLD MARK :
- G: Glycols (etilenoglicol, propilenoglicol)
- O: Oxoproline (5-oxoprolina por uso crônico de paracetamol/acetaminofeno, em grupos de risco)
- L: L-lactate (lactato por hipóxia/choque, convulsões, sepse)
- D: D-lactate (síndrome do intestino curto)
- M: Methanol
- A: Aspirin (salicilatos)
- R: Renal failure (uremia)
- K: Ketoacidosis (diabética, alcoólica, jejum)
KUSSMAUL (atalho clínico para acidose metabólica grave)
- K: Ketoacidosis
- U: Uremia
- S: Salicylates
- S: Sepsis/Shock (lactato)
- M: Methanol
- A: Alcoholic ketoacidosis
- U: (variações incluem Uremia)
- L: Lactic acidosis
Mecanismo na gasometria: uremia e cetoacidose (pedido obrigatório)
- Uremia: queda de TFG reduz excreção de ácido e reduz capacidade de gerar “novo HCO₃⁻” via excreção de NH₄⁺, levando ao acúmulo de ânions (sulfato, fosfato, orgânicos) e acidose com AG elevado (especialmente em estágios avançados).
- Cetoacidose: deficiência de insulina e/ou aumento de hormônios contrarregulatórios promovem lipólise e produção hepática de corpos cetônicos (acetoacetato e beta-hidroxibutirato), que são ânions não mensurados que consomem HCO₃⁻ ao tamponar H⁺.
“Osmolar gap” (quando suspeitar de tóxicos)
Em acidose metabólica com AG elevado e história/achados sugestivos (alteração visual, rebaixamento, hipocalcemia, dor abdominal, “odor” alcoólico), o osmolar gap pode ajudar:
- Osm calculada (mOsm/kg) ≈ 2 × Na⁺ + glicose/18 + ureia/2,8 (alguns incluem etanol/4,6 quando disponível).
- Osmolar gap = Osm medida − Osm calculada
- Gap elevado sugere osmóis não medidos (ex.: metanol, etilenoglicol, propilenoglicol), especialmente em fases iniciais.
- Pode normalizar tardiamente, quando o álcool já virou ácido (AG sobe enquanto o gap cai).
Manifestações clínicas (o que procurar no leito)
- Taquipneia e respiração de Kussmaul em acidoses importantes.
- Rebaixamento de consciência.
- Sinais de choque/hipoperfusão (lactato).
- Em intoxicações: alterações visuais (metanol), dor lombar/hematúria e hipocalcemia (etilenoglicol), zumbido/hiperventilação (salicilatos).
Pérolas (red flags):
- Acidose + lactato alto + instabilidade hemodinâmica: priorize ressuscitação e perfusão.
- Suspeita de tóxico (metanol/etilenoglicol/salicilato): trate como emergência, colha osmolaridade e acione antídotos precocemente.
Tratamento
- Tratar a causa (interromper produção/entrada de H⁺).
- CAD: fluidos + insulina + correção de eletrólitos (atenção ao K⁺).
- Lactato tipo A: reverter hipóxia/hipoperfusão (cristaloide, vasopressor quando indicado, controle da fonte).
- Uremia: considerar terapia renal substitutiva conforme indicação.
- Tóxicos: fomepizol (ou etanol conforme protocolo) e hemodiálise quando indicada.
Quando usar bicarbonato na acidose metabólica? (regras práticas)
Não é “antídoto” universal. Considerações frequentes:
- Em geral, considerar se pH < 7,1 com instabilidade, arritmia, choque refratário, ou se há indicação específica (ex.: hipercalemia grave concomitante em alguns contextos, intoxicações selecionadas).
- Em CAD, bicarbonato costuma ser evitado, exceto em acidemia muito profunda e situações específicas.
Riscos:
- geração de CO₂ (piora acidose intracelular e carga ventilatória)
- hipocalemia (ao tratar acidemia, K⁺ migra para o intracelular)
- sobrecarga de sódio/volume
Erro comum: “acidose láctica = dar bicarbonato”.
Na maioria dos casos, a correção efetiva vem de restaurar perfusão/oxigenação e tratar a causa (sepse, choque, hipóxia, convulsões). Bicarbonato pode ter papel apenas em cenários selecionados de acidemia profunda e instabilidade.
7.4 Acidose metabólica com AG normal (hiperclorêmica)
Principais causas
- Perda gastrointestinal de base: diarreia, fístulas, drenagens.
- Causas renais: ATR (distal, proximal, tipo IV).
- Iatrogenia: infusão de grande volume de NaCl 0,9% (acidose hiperclorêmica).
Ânion gap urinário (AGu): diferenciando renal vs extrarrenal
AGu = (Na⁺ + K⁺) − Cl⁻
Interpretação (para acidose metabólica com AG normal):
- AGu negativo: sugere perda extrarrenal (rim aumenta NH₄⁺ urinário e Cl⁻ acompanha, tornando AGu mais negativo).
- AGu positivo: sugere causa renal (ex.: ATR), com excreção de NH₄⁺ inadequada.
- Limitações do AGu
O AGu é um “proxy” da excreção de NH₄⁺. Pode falhar em algumas situações (ex.: presença de ânions urinários não mensurados, uso de diuréticos, cetonúria). Quando disponível, a medida direta de NH₄⁺ urinário é superior.
Atalho prático (hiperclorêmica):
- Diarreia costuma cursar com AG normal e AGu negativo (rim “trabalhando” e excretando NH₄⁺).
- ATR costuma cursar com AG normal e AGu positivo (rim não aumenta NH₄⁺ como deveria).
8) ATR (Acidose Tubular Renal): comparação didática (tipo 1, 2 e 4)
ATR | Defeito principal | Local (fisiopatologia) | K⁺ | pH urinário (típico) | Achados associados | Manejo (linhas gerais) |
Tipo 1 (distal) | Falha em secretar H⁺ | Intercaladas α no túbulo distal/ducto coletor não conseguem acidificar urina e gerar “novo HCO₃⁻” | Geralmente baixo | > 5,5 | Nefrolitíase, nefrocalcinose (urina alcalina), risco de doença óssea | Alcalinização (bicarbonato ou citrato, muitas vezes citrato de K⁺ se hipocalemia) |
Tipo 2 (proximal) | Falha em reabsorver HCO₃⁻ | No túbulo proximal há “vazamento” de HCO₃⁻. O distal ainda pode acidificar urina quando o HCO₃⁻ plasmático cai para um novo “set point” | Geralmente baixo | Geralmente < 5,5 (após estabilização) | Pode associar-se a Fanconi (fosfatúria, glicosúria, aminoacidúria) | Doses maiores de HCO₃⁻. Considerar tiazídico em casos selecionados. Tratar causa |
Tipo 4 | Hipoaldosteronismo ou resistência à aldosterona | Menor secreção de H⁺ e menor amoniagênese/excreção de NH₄⁺. Frequentemente em DRC/DM, IECAs/BRAs, heparina, trimetoprim | alto | Geralmente < 5,5 | Hipercalemia é pista central. Acidose costuma ser moderada | Tratar causa. Ajustar drogas. Medidas para hipercalemia. Fludrocortisona em casos selecionados |
Conexão direta com túbulo proximal e distal (resumo de “alto rendimento”)
- ATR tipo 2 (proximal): problema é “perder” HCO₃⁻ por falha do TP em reabsorver o filtrado.
- ATR tipo 1 (distal): problema é não conseguir excretar H⁺ no distal, falhando em acidificar urina e gerar novo HCO₃⁻.
- ATR tipo 4: não é defeito clássico de bomba apenas, mas um estado hormonal/funcional (aldosterona) que reduz excreção de K⁺ e limita excreção de ácido via NH₄⁺.
9) Alcalose metabólica (HCO₃⁻ alto): fisiopatologia, clínica e manejo
9.1 Padrão gasométrico
- pH ↑, HCO₃⁻ ↑, PaCO₂ ↑ (compensação).
9.2 Por que a alcalose metabólica se mantém? (o “tripé”)
Para existir alcalose metabólica sustentada geralmente é necessário:
- Geração de alcalose (perda de H⁺ ou ganho de base).
- Manutenção por:
- depleção de volume (↑ reabsorção proximal de Na⁺ e HCO₃⁻)
- hipocloremia (dificulta excreção de HCO₃⁻)
- hipocalemia
- excesso mineralocorticoide
Hipocalemia perpetua alcalose: mecanismos tubulares (pedido obrigatório)
- Troca transcelular: em hipocalemia, K⁺ sai da célula e H⁺ entra, contribuindo para alcalemia.
- Néfron distal: aumenta atividade H⁺/K⁺-ATPase para poupar K⁺, aumentando secreção de H⁺ e reabsorção de HCO₃⁻.
- Túbulo proximal: hipocalemia favorece reabsorção de HCO₃⁻, reduzindo a capacidade de excretar excesso de bicarbonato.
9.3 Classificação pela clorúria
- Responsiva ao cloreto (Cl⁻ urinário geralmente < 20 mEq/L):
- vômitos
- aspiração por SNG
- pós-diurético (fase de contração de volume)
- tratamento: NaCl 0,9% + reposição de K⁺
- Resistente ao cloreto (Cl⁻ urinário geralmente > 40 mEq/L):
- hiperaldosteronismo e estados mineralocorticoides
- tratamento: tratar causa + antagonista de mineralocorticoide (ex.: espironolactona) quando apropriado
9.4 Clínica
- Fraqueza, câimbras, arritmias (frequentemente por hipocalemia).
- Sintomas de hipocalcemia ionizada por alcalemia: parestesias, tetania.
Pérola clínica: em alcalose importante, pode haver redução do cálcio ionizado e sinais de tetania como Chvostek e Trousseau.
Tratamentos adjuvantes (quando não basta soro + K⁺)
- Acetazolamida: útil em algumas alcaloses (especialmente em pacientes com sobrecarga de volume), aumenta bicarbonatúria. Atenção à hipocalemia.
- Ácido (HCl) IV: reservado a casos graves e refratários, em ambiente monitorizado.
- Diálise: considerar quando há indicação dialítica concomitante ou alcalose grave em DRC/IRA.
10) Acidose respiratória (PaCO₂ alto): fisiopatologia, clínica e manejo
10.1 Padrão gasométrico
- pH ↓, PaCO₂ ↑, HCO₃⁻ ↑ (compensação renal, maior se crônico).
10.2 Fisiopatologia
Hipoventilação alveolar → retenção de CO₂ → aumento de ácido carbônico.
- No agudo, HCO₃⁻ sobe pouco (tampão não renal).
- No crônico, rim aumenta reabsorção de HCO₃⁻ e excreção de H⁺ (inclui aumento de NH₄⁺), elevando HCO₃⁻ mais.
10.3 Causas comuns
- DPOC exacerbado.
- Depressão do SNC (sedativos, opioides).
- Doença neuromuscular.
- Alterações mecânicas (obesidade-hipoventilação, deformidades torácicas).
10.4 Tratamento
- Suporte ventilatório (VNI quando apropriado, ou invasivo).
- Tratar causa precipitante (broncoespasmo, infecção, sedação).
Evite “corrigir” com bicarbonato como abordagem primária: pode gerar CO₂ adicional, piorar hipercapnia e aumentar acidose intracelular.
11) Alcalose respiratória (PaCO₂ baixo): fisiopatologia, clínica e manejo
11.1 Padrão gasométrico
- pH ↑, PaCO₂ ↓, HCO₃⁻ ↓ (se persistente, por compensação renal).
11.2 Causas comuns
- Dor, ansiedade.
- Hipóxia (pneumonia, edema pulmonar, altitude).
- TEP.
- Sepse, febre.
- Gravidez.
- Ventilação mecânica excessiva.
11.3 Tratamento
- Corrigir gatilho (analgesia, O₂ se hipóxia, tratar TEP/sepse, ajustar ventilador, manejo de ansiedade).
12) Tabela-síntese: padrões gasométricos
Distúrbio primário | pH | PaCO₂ | HCO₃⁻ | Ideia central |
Acidose metabólica | ↓ | ↓↓ (comp.) | ↓ | Ganho de ácido ou perda de base |
Alcalose metabólica | ↑ | ↑↑ (comp.) | ↑ | Perda de H⁺ ou ganho de HCO₃⁻ |
Acidose respiratória | ↓ | ↑ | ↑↑ (comp.) | Hipoventilação e retenção de CO₂ |
Alcalose respiratória | ↑ | ↓ | ↓↓ (comp.) | Hiperventilação e eliminação de CO₂ |
13) Excesso de base (BE): como usar sem se enganar
BE estima o componente metabólico.
- BE negativo sugere acidose metabólica.
- BE positivo sugere alcalose metabólica.
Útil para gravidade e acompanhamento, mas não substitui AG, compensação e contexto.
14) Exemplos curtos
Como usar os exemplos: identifique distúrbio primário → aplique compensação → procure misto → calcule AG e Δ/Δ quando indicado.
Exemplo A — Acidose metabólica com compensação adequada (Winter)
- pH 7,25 | HCO₃⁻ 12 | PaCO₂ 26
- Winter: PaCO₂ esperada = (1,5×12)+8 = 26 ± 2 → compensação apropriada
- Se Na 140, Cl 102: AG = 140 − (102+12) = 26 → AG elevado → pensar em GOLD MARK (lactato, cetoacidose, uremia, tóxicos etc.)
Exemplo B — Acidose metabólica + acidose respiratória (misto)
- pH 7,10 | HCO₃⁻ 10 | PaCO₂ 50
- Winter esperada: (1,5×10)+8 = 23 ± 2 → PaCO₂ medida muito maior → acidose respiratória associada (fadiga ventilatória, DPOC, sedação, neuromuscular)
Exemplo C — Alcalose metabólica + alcalose respiratória (misto)
- pH 7,55 | HCO₃⁻ 36 | PaCO₂ 34
- Compensação esperada (alcalose metabólica): PaCO₂ ≈ 40 + 0,7×(36−24) = 48 ± 5 → PaCO₂ está menor, não maior → alcalose respiratória associada